Um amor: a tradição

Foto: Instagram Temos Vagas

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Se você ainda não conhece a marca Temos Vagas, precisa conhecer! 

A ordem da casa é tradição! Explorando o manual e com foco em desperdício zero, buscando assim uma balança equilibrada entre produção e respeito ao meio-ambiente, a marca de tricô, nascida no interior de Paraty,  oferece peças com história e tradição sem deixar de lado a personalidade e o humor. 

Trazendo peças cheias de carinho e amor, como aquelas que no passado eram costuradas a mão por nossas avós, a Temos Vagas foca num armário cápsula com peças que mesclam entre o básico e o inusitado. 

Leia abaixo o bate-papo com a Desirée, criadora da marca e eterna apaixonada por tricô, onde elas nos conta sobre os valores e história da Temos Vagas. 

Modifica: Como começou e de onde surgiu o interesse em trabalhar com essa "nova" moda?

Foto: Instagram Temos Vagas

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Desirée: A Temos Vagas surgiu do meu amor pelo tricô e pelo fazer com as mãos. Me formei como  cenógrafa e figurinista, sempre trabalhei em teatro e televisão, fazendo coisas com as mãos, desenhando e inventando. Minha mãe me ensinou a tricotar aos 8 anos, e na faculdade comecei a fazer peças próprias pra mim e minha irmã. Com a compra da minha primeira maquina de tricô percebi as infinitas posibilidades técnicas e de criação, e um tempo menor pra concretizar as ideias. 

M: Como, e de quanto em quanto tempo, são desenvolvidas as coleções? 

D: O interesse em trabalhar dum jeito não industrial, respeitoso com o meio ambiente e idealmente, circular, surgiu ao mudar da cidade pra zona rural, (de Buenos Aires- Argentina , pra Paraty, e ainda moro a 6km do centro) e perceber o impacto direto que nossas ações têm no planeta; o lixo, a água que desce pelos ralos, todo o que fazemos impacta diretamente na natureza. Na cidade é mais difícil perceber isso. Aqui meu shampoo acaba na praia que vejo da rua, ou nas raízes da frutíferas do meu quintal, por exemplo. O lixo se acumula, etc. 

Pra criar qualquer produto, é preciso resolver o processo de desenho inteiramente, que pra mim tem que incluir a forma de descarte também. O processo de produção também não deve gerar desperdício, nem de energia nem de material.  Deve gerar renda justa, contribuir com saberes e oficios tradicionais, privilegiando a qualidade e tradição versus velocidade e baixa qualidade/baixo custo. O oficio de tecelão manual atualmente está sendo subtituido pelas máquinas digitais e motorizadas; são fantásticas, mas também inacessíveis pro pequeno produtor, o qual resulta em dois problemas: falta de produtores independentes, e de transmissão da técnica, falta de artesãos. 

As coleções são desenvolvidas duas vezes ao ano, de maneira geral. Mas na realidade estou prototipando o ano inteiro, fazendo peças únicas, e pesquisando com nossas proprias peças. 

M: Quais os principais materiais usados pela marca?

D: Os principais materiais utilizados são o algodão e a lã acrílica. Para 2019 nossa meta é passar do acrílico/poliamida/viscose, pra fibras animais.

M: Quais são os valores explorados? 

D: Nossos valores são a tradição manual, o desperdício zero-fully fashioned, design exclusivo e peças únicas. Fibras naturais para 2019. Não explorados mas tácitos na comunicação: representatividade negra na gráfica.

M: Qual é a sua percepção sobre o consumo de moda no Brasil? 

D: O público tem muita mais consciência do slow fashion e preço justo do que na Argentina, pra começar. Mas em geral, esta muito focado em dois segmentos em especial: grandes varejos tipo lojas de departamentos, ou marcas no segmento luxo/premium. As marcas intermediárias não têm muita visibilidade na mídia. 

M: Qual impacto/mudança vocês querem trazer? 

D: Queremos trazer uma mudança no paradigma de consumo: valorizar cada peça produzida; mudar do fast fashion, que só traz "cheap thrills" e um alto custo ao planeta: salarios baixos, maõ de obra não local, alto desperdicio na produção, pouca originalidade no desenho, consumo desenfreado.  

M: O que te move? 

D: Como designer, me move: 

- A paixão por fazer peças que permitam expressar quem você é ou quer ser hoje, como se sente, seu humor e sua personalidade. A indumentária, além da sua utilidade, é uma linguagem não verbal. Me move proporcionar ferramentas pra essa linguagem. 

- A paixão pela pesquisa em cor e texturas. 

 - Fazer parte de uma tradição gigante, de séculos, do tricô: diversas técnicas em diferentes regiões, paletas, modelagens. Sem estragar o que resta desse planeta. 

Adriana ZemelComentário