Valorize essa moda

Foto: Instagram Useverse

Foto: Instagram Useverse

Hoje, venho apresentar a Useverse, uma marca que foca não apenas na beleza exterior, mas na interior, valorizando a pausa e a conexão. 

A ordem da casa é conectar! Depois de dez anos trabalhando na indústria da moda tradicional, a Magê, fundadora da Useverse, viu que a forma como aquela indústria se relacionava com o consumidor final já não representava mais seus valores.

Bailarina e yogini, sabia que o momento de pausa e apreciação era o que a ajudava em sua transformação pessoal e focou nesses valores ao criar a Useverse, marca de moda fitness. Verse vem justamente de verso, do lado de dentro, do nosso interior, trabalhando a moda como algo maior, com amor e afeto. 

A marca, que utiliza apenas a produção local - como forma de criar um relacionamento com sua cadeia produtiva, e busca alternativas para diminuir o impacto causado no meio-ambiente, tem a união do corpo, alma e mente como base de sua criação. 

Conversamos com a Magê sobre temas como a indústria atual da moda e o que a move: 

Foto: Instagram Useverse

Foto: Instagram Useverse

Modifica: Como começou e de onde surgiu o interesse em trabalhar com essa "nova" moda?
Magê: Essa sementinha de construir o mundo que quero viver sempre esteve dentro de mim. Cresci no interior, minha mãe é cozinheira de comidas naturais e sempre tive muito respeito ao jardim, à horta, aos animais, ao ciclo da natureza… Também, desde muito nova, conheci a meditação, o que me ajudou muito a pensar assim.
Foi transformador quando, aos 25 anos, percebi que poderia unir minha essência holística à moda e ao design; criar algo com amor e compartilhar isso com as pessoas através das roupas.

Modifica: Como, e de quanto em quanto tempo, são desenvolvidas as coleções?
M: Na USEVERSE não temos coleções e sim ciclos. O processo de criação e desenvolvimento é muito orgânico, está vivo… e prefiro trabalhar com ciclos de peças e, conforme for acontecendo, naturalmente, perguntando o que as pessoas acharam, sentindo suas respostas e entendendo os caminhos, os ciclos nascem.
A Moda que cria e impõe é antiga. Hoje o processo criativo é compartilhado também. Uso muito às redes sociais para saber o que as pessoas gostam, querem, quais palavras se identificam, que comidas preferem... isso tudo torna a relação próxima e verdadeira.

Modifica: Quais os principais materiais usados pela marca?
M: Este é o meu maior desafio! No Brasil, temos bastante dificuldade de encontrar matérias-primas naturais e sustentáveis. Quando encontramos, são tecidos muito caros que acabam inviabilizando muitos projetos. É um grande desafio e estou louca para ver este cenário produtivo da moda evoluir, usufruindo da tecnologia e tornando-se mais acessível.
Como o fitness precisa de tecidos tecnológicos, com absorção de suor, transpiração adequada, secagem, e ainda, não amassar, preciso usar nas Leggings, Tops, Bodies, tecidos especiais para essas as necessidades físicas do movimento. Como, em sua maioria, não são tecidos naturais (algodão, linho etc.) procuro utilizar malhas da melhor qualidade e de tecelagens nacionais, com selos de sustentabilidade e biodegradáveis. Também considero importante não usar malhas que não conheço a origem, da China, ou sem qualidade.
Em nossas Blusas consigo usar malhas de algodão orgânico que AMO! São macias e muito confortáveis, e ainda por cima, possuem uma durabilidade muito maior que malhas finas que estragam rapidamente. Além disso, é interessante olhar a questão do algodão orgânico: ser simplesmente de algodão, e não ter certificação, pode significar um plantio nada consciente, o que é extremamente poluente e prejudicial a saúde das pessoas nestas plantações, por exemplo.
Já, na linha de Tricô, tenho algumas peças com fibras naturais e, em outras, adiciono elastano e alguns materiais para trazer mobilidade e conforto, afinal, todas as peças são desenvolvidas para favorecerem os movimentos. Procuro trabalhar com fios certificados e sempre pergunto a origem das matérias primas às tecelagens: mas nem sempre os fornecedores sabem. A minha busca é incessante, aliás, encontrei um fornecedor de algodão incrível para as próximas peças e estou muito ansiosa para lançar!

Modifica: Quais são os valores explorados?
M: A minha maior preocupação é com a valorização das pessoas que participam em todo o processo: o fazer com carinho, cuidando de cada peça, respeitando as habilidades e vontades de quem costura, corta, modela, desenha, estampa, ilustra...
Aprendi a costurar aos 14 anos com uma costureira incrível! Valorizo muito este trabalho manual (e cultural) que é a costura: uma conexão com o fazer com as mãos, uma imersão no momento presente incrível!
Também temos na cultura a preocupação de impactar o mínimo possível o ambiente com lixo, resíduos... Focamos num processo eficiente, sem desperdícios. As embalagens da USEVERSE são saquinhos feitos de algodão orgânico, costurados pela Pano Social. 

Modifica: Qual é percepção de vocês sobre o consumo de moda no Brasil?
M: Poderíamos falar no sentido da valorização das roupas? Prefiro do que as palavras consumo e moda, pode ser?
Acredito que as pessoas estão começado a valorizar e entender um trabalho com carinho, respeito, local e pequeno.
Ainda encontramos desafios no sentindo de que as pessoas valorizam muito a composição do tecido apenas, considerando uma marca sustentável apenas se ela trabalha com algodão. E não é isso! Existem muitos caminhos para a sustentabilidade e para o compartilhamento de valor, numa esfera mais ampla: e o cuidado com as pessoas é super importante! Não vale ser natural com uma matéria prima e não transparente com quem fez.
Vejo um crescimento a partir desta valorização e quero ver, cada dia mais, o desenvolvimento de pequenos e felizes produtores. Os grandes grupos de Moda (posso usar moda) cansaram muito as pessoas… agora é hora de florescer novos modelos de vida, trabalho, relacionamento, economia.

Modifica: Qual impacto/mudança vocês querem trazer?
M: Queremos trazer mais afeto para o fazer da roupa, para as relações e para com nós mesmos. Lembrar de nos tocarmos, percebermos, sentirmos. Lembrar que podemos ser mais analógicas, de valorizar mais as pessoas e o mundo. Queremos trazer esta mensagem de que roupa é manual, é oficio, expressão, design, amor, proteção.

Modifica: O que te move?
M: O que me move é a vontade de me expressar através da roupa e poder construir o mundo que quero viver. Claro que com roupas e estética, mas também com respeito, amor, cuidado, carinho e conexão.

Adriana ZemelComentário