Recriando moda

Foto: @cicloupcycling

Foto: @cicloupcycling

A ordem da casa é ressignificar roupas. É assim que a Cicloupcycling define sua missão.

Não faz muito tempo que conheci a marca, e logo de cara já a achei incrível.

Foto: @cicloupcycling

Foto: @cicloupcycling

Criada pelas sócias Larissa Ramos e Victoria Battistuzzo, “a marca surgiu da vontade de trabalhar com moda da maneira mais justa possível, com a cadeia produtiva e com o mundo, (…) construíndo um negócio que fosse correto do início ao fim” conta Victoria. A proposta da Ciclo é aumentar a vida útil de roupas e tecidos. Para isso, todo o processo de criação da marca se inicia com uma busca criteriosa por peças e tecidos em desuso.

E, ao invés de simplesmente se tornarem lixo, ganham uma nova proposta e linguagem voltando às araras da marca.

Adicionando um toque ainda mais especial para as peças produzidas, toda a coleção é única e exclusiva. Cada criação recebe, além do seu nome, um número, tornando-a ainda mais original.

E como roupas são importantes, e suas histórias também, a Ciclo faz questão de dividir a peça que deu origem aquele novo produto.

Com atelier localizado no bairro de Pinheiros, em São Paulo, e e-commerce, essa é uma marca que você precisa conhecer.

Para saber mais sobre a forma de pensar e criar da Ciclo, dividimos aqui o bate-papo que tivemos com a Victoria:

Moda Modifica: Quem é a marca? Quem está por trás dela?
Victoria: Somos em duas sócias, Larissa Ramos e Victoria Battistuzzo. Designers e apaixonadas por moda, pelo planeta e por seres humanos, fazemos todas as partes da Ciclo acontecerem. Desde o designer gráfico, desenho das peças e produção, até a parte administrativa. Na parte da mão de obra, contamos com o lindo trabalho do Instituto Alinha, que une oficinas com trabalho fiscalizado, justo e coerente da plataforma com as marcas. Assim, garantimos que as oficinas trabalham em condições regulares com um preço justo por cada trabalho. Sem mão de obra escrava e sem ambiente inseguro de trabalho. 

MM: Como funciona o processo de criação das peças?
V: Inicialmente, procuramos referências do estilo que gostamos e que queremos seguir na coleção, para juntar e fazer um moodboard. Gostamos de trabalhar em cima da individualidade das pessoas, pensamos que todos os seres humanos tem suas particularidades e gostos, somos todos extremamente diferentes e por isso tentamos trazer essa mesma sensação para nossas coleções. Se os seres humanos são únicos e excepcionais, por que não esperar o mesmo das nossas peças de roupa, não é mesmo? Assim, pensamos no conjunto das peças que queremos, cartela de cor e tipos de tecidos. Na sequência, fazemos um garimpo criterioso de peças que estão em ótimo estado (do nosso acervo ou brechós), e de tecidos recuperados (encontramos no Banco de Tecidos, lá temos a oportunidade de comprar tecido por metro e trabalhar com a modelagem desde o início). Com a seleção de tecidos e peças que irão para coleção, fazemos o desenho de cada peça, individualmente (…) Como são peças únicas, normalmente levam mais tempo do que produção em grande quantidade, somos um slow slow fashion. Então contamos com algumas oficinas que fazem essas peças. Seja transformar completamente uma roupa que já existe, seja fazer uma peça do início. Acompanhamos de perto todo o processo de confecção, para que tudo saia como o planejado (…) Todas as peças são únicas e numeradas, pois usamos o que temos disponível e muitas vezes se torna quase impossível achar novamente o mesmo tecido e reproduzir a mesma peça diversas vezes. E por isso, temos a opção de fazer peças sob medida, desenhadas exclusivamente e feita com as medidas da cliente. 

MM: Pode falar mais sobre a opção das peças sob medida?
V: Além das peças da coleção, feitas a partir de upcycling ou material de reuso, temos um trabalho totalmente personalizado de fazer uma peça sob medida. Pode ser referência de alguma peça que já passou pela Ciclo, ou para ocasiões especiais como festas e figurino para show, entre outros desejos que surgirem. Juntos ao cliente pensamos como queremos essa peça, para ocasião, gosto e modelagem que mais nos agrada. Procuramos o que temos disponível de material no nosso acervo ou no Banco de Tecidos. Chegado a um acordo da peça que vamos fazer, com desenhos e materiais, confeccionamos a peça com as medidas da pessoa. Totalmente exclusiva e nas medidas exatas. E sempre com material recuperado. O projeto só é finalizado quando o cliente está 100% satisfeito com o resultado.

MM: Existe o conceito de coleção? E, se sim, como e de quanto em quanto tempo elas são planejadas?
V: Fazemos coleções atemporais, mas não conseguimos deixar o conceito de coleção. Por serem peças únicas, faz sentido juntar um número de, mais ou menos, 30 peças para serem confeccionadas por vez. A oficina tem que dar atenção especial a cada peça, e isso faz o processo ser ainda mais lento. Da idealização até a confecção da coleção, demora em torno de 30 a 60 dias . Fazemos uma coleção a cada 3 meses. Por enquanto. Estamos no começo. A ideia é crescer e atender cada vez mais pessoas neste mercado que ainda é tão carente, o mercado sustentável ético e transparente. 

MM: Qual é a percepção de vocês sobre o consumo da moda no Brasil?
V: A indústria da moda pode ser muito destruidora e poluente, não só no Brasil, mas no mundo. Pessoas trabalham em condições análogas ao trabalho escravo para a roupa chegar a preços baixos nas lojas. Destroem o planeta sem pensar no amanhã. Um sistema egoísta que gera lucro concentrado e alto potencial de degradação. 
Em algum momento, ou desde sempre, aprendemos a não olhar por trás das cortinas e não entender da onde vem, porque vem, ou quem traz. Acreditamos que há alguns anos o olhar sobre isso tem mudado, se transformado. E com isso todos os projetos sustentáveis, éticos e transparentes vem ganhando espaço, afinal há uma parcela da população em ascendência que está farta de consumir sem consciência dos fatos. Que está farta do consumo desenfreado, e da falta de coerência e ética para com o ser humano e com o planeta. Estamos aprendendo a enxergar onde é que nós somos a causa dos problemas. Estamos amadurecendo, criando o entendimento de que se existe um problema provavelmente a gente faz parte da causa. Assim como também fazemos parte da solução. Entendemos o poder que temos como consumidor, somos nós que giramos o mercado, nós que decidimos quem fica e quem vai. Esse sentimento de responsabilidade é tão enriquecedor quanto transformador. A moda no mundo ainda vai se transformar muito. O que estamos vendo agora é o início de uma revolução!

MM: Qual impacto vocês querem trazer?
V: Queremos que o consumidor entenda seu lugar de poder na engrenagem do mercado. Queremos que os seres humanos se responsabilizem, e que comecemos a trabalhar juntos na mudança. Queremos um planeta limpo e vivo. Que o trabalho volte a ser valorizado e não monetarizado a ponto da vida humana não valer mais nada. Queremos olhar para trás e ver que as pegadas que deixamos são de dar orgulho. Queremos trabalhar na construção de um novo mundo, uma nova consciência. Queremos criar o entendimento de que somos indivíduos que habitam o mesmo espaço e precisamos trabalhar juntos se tornando um, com os outros e com o planeta. A Ciclo nunca foi apenas uma loja de roupas, a Ciclo é ideia, um novo ciclo de vida. 

MM: O que as move?
V: De fato, o amor. Vamos juntxs! 

Adriana ZemelComentário